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Bem, agora vou contar sobre minha vida e como comecei a escrever. – Quando começo a falar do Raul é difícil parar, mas agora ele não é a primeira pessoa no meu livro. Aprendi muito, sofri muito, por isso posso escrever. Tenho conteúdo em tudo que faço, falo e escrevo.
- Vou falar de minha pessoa e como nasceram os meus livros.
- Certo dia, recebi uma linda carta com um livro. – O livro chama-se “Retalhos da Vida”.
– Fiquei surpresa e emocionada, pois este livro era de dona Lózinha – “ uma simples dona de casa, escritora”,
que emoção! – Li o livro onde no decorrer da estória ela contava as experiências de sua infância e juventude, enclausurada pela sociedade machista. Também contava sobre os – “Cangaceiros” – entre eles “Lampião, o qual ela chegou a conhecer de perto – eu até então tinha medo, - mas dona Lózinha, uma mulher sábia, relatou a estória, até com certa simpatia. – Eles não eram tão maus como eu imaginava, desde então não temi mais, pois como foi contado, os cangaceiros lutavam por seus ideais e desta forma não se aprofundou na história.
- Na cama com meus filhos, eles dormiam como anjos, eu devorava o livro com a maior atenção.
- Eu estava em estado de graça, emocionada por poder ter uma amiga simples como eu e “Escritora” – senti-me orgulhosa, pensava ela é minha amiga e não se esqueceu da minha pessoa. Senti-me até importante com tamanha honra.
- Abracei o livro com amor e agradeci a Deus pela dádiva de ter uma amiga, que mesmo na distância lembrou-se de mim. – Foi neste momento que Deus clareou minha mente, desde então pensei – “Se dona Lózinha, tão simples como eu e conhecendo tão bem as mulheres sofridas, teve coragem e escreveu – pensei... “porque não eu?”
- Fui até o meu baú de lembranças desde criança, quando já escrevia o que achava de mais importante e maior valor para mim.
- Pois é, comecei a burilar nas minhas lembranças nunca esquecidas – lembrei da minha infância, da minha pobre e enclausurada juventude, onde tudo era pecado e nada se podia falar nem pensar – pensamentos castradores dos adultos – na minha memória revi as mulheres que conheci de perto, com tantos sofrimentos, tanta miséria humana. Naquele momento, senti necessidade de escrever o que passei e vi com outras mulheres. -----Desde criança eu me preocupava com as mulheres. – Pensei...,mas como fazer para escrever um livro? Era tão inexperiente, não sabia nada, não tinha nada eu era tão limitada, pois o mundo estava fechado para mim pela palavra “NÃO” – sem ajuda e com um marido machão. – Amedrontada até de pensar, guardei tudo novamente, pois era um segredo só meu de mais ninguém – tinha muito medo!
- Passaram-se muitos anos e o número de folhas escritas ia aumentando, não cabiam mais no meu pequeno baú. – Desde então, tomei uma atitude, pediria livros emprestados. – Desta forma pedi alguns livros à professora do jardim de infância de Nancí, Dna Celeste. – Comecei a lê-los sempre às escondidas de todos os familiares, principalmente do meu marido – pois ele achava que os livros ou amizades poderiam ter más influências nas nossas vidas.
- Certa vez, minha tia Lúcia emprestou-me um livro, mas, não tive tempo para esconde-lo. Meu marido o encontrou, ficou bravíssimo, e foi comigo para devolve-lo.
– Quando que eu era criança, em torno de dez anos, ela comprava muitas revistas e livros, desde essa época eu adorava ler.
- Para ganhar alguns trocados eu ia até a casa das mulheres que moravam na minha rua para poder trabalhar. Cuidava e limpava as casas fazendo todos os serviços domésticos, desta forma ganhava uns trocadinhos e algumas moedinhas das quais tenho guardadas até hoje.
- Minha mãe guardava estas moedas, pois assim, quando eu crescesse ela as colocaria em um banco. Porém, como é claro as moedas perderam o valor.
- Na casa de minha tia Lúcia, eu me esmerava nos cuidados com a casa, limpava, tirava água do poço, fazia compras; como era um bairro distante tudo era muito longe, mas para mim, nada tinha importância o que importava era que eu estava trabalhando e desta forma minha tia iria me recompensar. Ela não me dava moedas, mas sim um pedaço de bolo e uma uva. Sim – uma única uva! Um pedaço de maçã, algumas frutas. Não recebia dinheiro, porém o mais precioso para mim, livros e revistas.
- Depois dos afazeres ia até o fundo do quintal, ao galpão, e então me sentia feliz em meio aos livros e revistas – estava recompensada pelo meu trabalho do dia. - Eu tinha fome de ler e continuo assim até hoje.
- Durante vários anos, fui guardando meus segredos, só meus.
- Com o passar de um longo tempo, já com vinte e cinco anos de casamento, e meus neurônios sendo devorados pelo meu pensamento repleto por tantos obstáculos, comecei a escrever às escondidas.
- A vontade de ler e escrever veio desde criança, na mais tenra idade, ninguém me ensinou nada, não tive incentivo de ninguém – Foi somente quando li o livro de dona Lózinha, esta mulher que sem saber plantou uma semente fértil e forte no meu coração tão angustiado por querer saber mais, encorajou-me.
– Quando estava para fazer vinte e cinco anos de casada – meu marido me perguntou: o que você quer de presente pela nossa união?
- Quero algum dinheiro.
- Ele respondeu: - Para que se eu lhe dou tudo o que você precisa? Mais?
- Eu não quero festa nem jóias, não quero nada, só quero uma quantia para ter algum dinheiro pois nunca peguei nada teu.
- Ele disse, quanto? – Não sei, quanto você puder me dar.
- Pensou muito e como não fizemos festa nem me deu uma jóia, só casamos na igreja – agora mais feliz, pois fui levada pelos braços de meu filho Raulzinho e Nanci acompanhou o pai - Servi um almoço para os parentes e amigos mais chegados. Foi lindo! - Ele me deu uma quantia, era pouco, mas com o jeitinho que só a mulher tem pedi mais um pouquinho. – Ele deu mas sempre perguntava;- Eu não entendo, você tem tudo. – Eu pensava: O que é tudo para ele? Meu Deus!
- Bem, o livro já estava quase pronto, mas eu precisava de alguém que o datilografasse – conheci uma mocinha, ela vinha até minha casa quando meu marido não estava, e lá ele escreveu o meu primeiro livro.
- Agora, precisava encontrar alguém para publicá-lo, a mocinha disse: - Eu conheço uma gráfica no centro da cidade, eu levo a senhora. – O livro era simplezinho, porém esclarecedor, não pude comentar com ninguém pois era meu segredo, sendo assim, não sabia o que fazer nem como começar.
- O livro chegou com o nome “A Janela” – Eu digo a janela porque eu vi o mundo através da janela de minha alma e, por intermédio das leituras que a professora da Nanci me emprestou, e também dos livros e revistas que li na minha infância.
- Pois é, o Raul viajava muito, nem bem chegava em casa e lá ia de volta ficava em torno de dois dias somente. Só o Natal e Ano Novo ele ficava com a família.
- Foi desta maneira que me acostumei a ficar só, muito só, eu e meus filhos.
- PS.: agora eles são adultos e continuo só, eu e Deus.
-Foi assim que o amor à escrita e por meio de vários livros com os mais diferentes tipos de informações, que eu entrei de cabeça na escrita, escrevo muito, agora sem medo graças a Deus.
- Bem, voltando – quando levei o meu pequeno livro “A Janela” para a gráfica – lá encontrei o dono – Eu disse: Quero que o senhor edite este livro para que eu possa publicá-lo.
- Ele leu o livro e disse: - A senhora tem coragem de publicar este livro? Admirada respondi : Claro! Acho que a quantia que estou lhe pagando é suficiente para publicar o livro. Ele disse: - Tudo bem, mas nunca vou mostrar este livro à minha esposa é muito revelador e poderei ficar em apuros no meu casamento. -Vou dar-lhe um conselho – não publique – seu marido não irá apóia-la de maneira alguma.
- Argumentei – É melhor o senhor pegar o seu dinheiro e publicar o meu livro, o resto eu resolvo. Isto é assunto meu, Deus está comigo.
- Ele imprimiu, colocou a capa que eu mesma fiz com uma foto tirada por minha filha Nanci. Eu na janela de minha mãe, ficou linda.
- O livro já estava pronto, não podia voltar atrás. Aquele homem por maldade escreveu várias palavras erradas – não tinha problema. Deus estava vendo.
- O livro chegou às minhas mãos – pensei... – como dizer ao meu marido? Como?- Porém, peguei coragem , e um domingo fui junto com a mocinha que me ajudou à uma feira debaixo de um viaduto em São Paulo. Lá, coloquei algumas tábuas e sobre elas os meus livros. – Sabem, ficou muito estranho.
- Todas as pessoas que passavam, olhavam, paravam e compravam o livro. – Vendi todos os que levei, mas... como meu marido é artista logo os jornais publicaram – “ A mulher de Raul Gil é uma escritora”, e a partir daí começou o tormento. Meu marido ficou enfurecido e a casa caiu com tudo.
- Fui convidada para ir à televisão, dar entrevistas para os jornais e então para o Brasil inteiro. – É claro , com muito medo do que pudesse vir.
- E veio – a separação sem eu esperar, pois jamais conseguiria viver separada pelo fato de ter casado inexperiente, jovem e sem conhecer a vida, eu tinha medo do mundo e das pessoas.
- Meu marido me disse: - Carmen você não sai de casa, não tem amizades, não lê , como pôde escrever este livro? – Eu estou a tantos anos na televisão e nunca tive tantas reportagens, o que você fez para que isto pudesse acontecer? O que os outros vão falar de mim? Eu que sou conhecido no Brasil inteiro?
- Pensei...: Que audácia do ser, parece que só ele existe no universo. – Porém como relutei ele disse; - O livro ou o casamento?
- Respondi: - O livro. – Ai desmoronaram os vinte e cinco anos de casamento – foram oito meses de angústia e sofrimentos, perdemos tudo que conseguimos através de muita luta, tanta pobreza, tristeza a grande solidão e ele no trabalho estafante – tudo foi por terra.
- No entanto, havia coisas mais secretas que meu pobre livrinho – ele já tinha uma outra pessoa mais jovem. – Ele estava só esperando uma oportunidade, e eu lhe dei sem saber. – Ele estava livre com a garota e, já pensava seriamente em casamento. Ela e a mãe me infernizaram durante os oito meses para eu assinar o desquite.
-Porém, eu não assinei – pois vi que ele poderia cair no mais profundo abismo. Sofri, mas lutei com dignidade e sabedoria. Foi aí que tive o prazer de me conhecer como uma mulher forte de princípios louváveis e honrada. A verdade estava comigo e Deus.
- Houveram muitas intrigas, a família dele entrou no meio, eles faziam questão de não ter nenhum contato comigo e nem com meus filhos, eu não existia para eles.
- A partir deste momento todos estavam em prontidão em frente a minha pessoa; estava sozinha, sem apoio de ninguém. Meus pais não gostaram do ocorrido, pois tinham vergonha de ter uma filha separada. Meu cunhado, marido da minha irmã, fechou a porta na minha cara, mandou-me embora de sua casa. Minha irmã não me defendeu.
- A família de meu marido achava que eu era uma oportunista, que queria usar o nome dele para crescer na vida – pois eu, inocentemente coloquei Carmen Gil, pelo fato de ser um nome pequeno e comercial e já estava acostumada com este nome. Pelo fato de ter casado extremamente jovem, eu pensava que me pertencia pela lei dos homens e de Deus. – Até hoje me arrependo deste meu deslize, pois o nome sagrado é o nome de meu pai que é Sanchez com muito orgulho – mas eu era tola.
- Bem, o restante dos meus livros, foram queimados, rasgados e jogados na lata do lixo, etc...
- Depois voltamos, pois ele soube que a garota com quem tencionava casar era amante de vários homens, inclusive amigos dele.
-Agora, estou casada há quarenta e cinco anos – voltei a escrever, porém sem medo. O outro livro chama-se ( A Janela da Alma). Este ele apoiou literalmente, porque fui mais inteligente, escolhi o maior apresentador do Brasil de todos os tempos, para indicar este livro – O Dr. José Blota Júnior. Ele me conheceu desde minha adolescência por isso me conhecia profundamente, ele e Dna Sonia Ribeiro, um casal que é o maior orgulho da nossa televisão de todos os tempos.
- No momento estou terminando uma trilogia de romances que começa em 1600 na Espanha. Pelo fato de ser descendente de espanhóis queria homenagear minha “abuelita” (avó) Izabel uma mulher pequenina que chegou ao Brasil com cinco filhos homens, fugindo da guerra. Meu “abuelito” (avô), estava na Argentina a procura de um lugar para criar seus filhos. Porém, minha avó soube do Brasil, arrumou o que podia, deixou casa e tudo o mais na Espanha e veio com seus maiores tesouros que eram seus filhos em um navio precário.
- Mas, eles chegaram e venceram, hoje já falecidos, deixaram um legado de honra porque eles vieram acrescentar ao nosso amado Brasil. Com trabalho honesto, abriram várias indústrias de tornos, e em todo o mundo existem fábricas com os tornos “Sanchez Blanes” que é o sobrenome de minha avó – Izabel Sanchez Blanes – do qual nos orgulhamos muito.
- Daqui por diante, pretendo escrever até o último dia de minha vida – que Deus me dê inspiração para que eu possa ajudar através de meus livros mulheres como eu e dona Lózinha.