que emoção!
– Li o livro onde no decorrer
da estória ela contava as
experiências de sua infância
e juventude, enclausurada pela sociedade
machista. Também contava
sobre os – “Cangaceiros”
– entre eles “Lampião,
o qual ela chegou a conhecer de
perto – eu até então
tinha medo, - mas dona Lózinha,
uma mulher sábia, relatou
a estória, até com
certa simpatia. – Eles não
eram tão maus como eu imaginava,
desde então não temi
mais, pois como foi contado, os
cangaceiros lutavam por seus ideais
e desta forma não se aprofundou
na história.
- Na cama com meus filhos, eles
dormiam como anjos, eu devorava
o livro com a maior atenção.
- Eu estava em estado de graça,
emocionada por poder ter uma amiga
simples como eu e “Escritora”
– senti-me orgulhosa, pensava
ela é minha amiga e não
se esqueceu da minha pessoa. Senti-me
até importante com tamanha
honra.
- Abracei o livro com amor e agradeci
a Deus pela dádiva de ter
uma amiga, que mesmo na distância
lembrou-se de mim. – Foi neste
momento que Deus clareou minha mente,
desde então pensei –
“Se dona Lózinha, tão
simples como eu e conhecendo tão
bem as mulheres sofridas, teve coragem
e escreveu – pensei... “porque
não eu?”
- Fui até o meu baú
de lembranças desde criança,
quando já escrevia o que
achava de mais importante e maior
valor para mim.
- Pois é, comecei a burilar
nas minhas lembranças nunca
esquecidas – lembrei da minha
infância, da minha pobre e
enclausurada juventude, onde tudo
era pecado e nada se podia falar
nem pensar – pensamentos castradores
dos adultos – na minha memória
revi as mulheres que conheci de
perto, com tantos sofrimentos, tanta
miséria humana. Naquele momento,
senti necessidade de escrever o
que passei e vi com outras mulheres.
-----Desde criança eu me
preocupava com as mulheres. –
Pensei...,mas como fazer para escrever
um livro? Era tão inexperiente,
não sabia nada, não
tinha nada eu era tão limitada,
pois o mundo estava fechado para
mim pela palavra “NÃO”
– sem ajuda e com um marido
machão. – Amedrontada
até de pensar, guardei tudo
novamente, pois era um segredo só
meu de mais ninguém –
tinha muito medo!
- Passaram-se muitos anos e o número
de folhas escritas ia aumentando,
não cabiam mais no meu pequeno
baú. – Desde então,
tomei uma atitude, pediria livros
emprestados. – Desta forma
pedi alguns livros à professora
do jardim de infância de Nancí,
Dna Celeste. – Comecei a lê-los
sempre às escondidas de todos
os familiares, principalmente do
meu marido – pois ele achava
que os livros ou amizades poderiam
ter más influências
nas nossas vidas.
- Certa vez, minha tia Lúcia
emprestou-me um livro, mas, não
tive tempo para esconde-lo. Meu
marido o encontrou, ficou bravíssimo,
e foi comigo para devolve-lo.
– Quando que eu era criança,
em torno de dez anos, ela comprava
muitas revistas e livros, desde
essa época eu adorava ler.
- Para ganhar alguns trocados eu
ia até a casa das mulheres
que moravam na minha rua para poder
trabalhar. Cuidava e limpava as
casas fazendo todos os serviços
domésticos, desta forma ganhava
uns trocadinhos e algumas moedinhas
das quais tenho guardadas até
hoje.
- Minha mãe guardava estas
moedas, pois assim, quando eu crescesse
ela as colocaria em um banco. Porém,
como é claro as moedas perderam
o valor.
- Na casa de minha tia Lúcia,
eu me esmerava nos cuidados com
a casa, limpava, tirava água
do poço, fazia compras; como
era um bairro distante tudo era
muito longe, mas para mim, nada
tinha importância o que importava
era que eu estava trabalhando e
desta forma minha tia iria me recompensar.
Ela não me dava moedas, mas
sim um pedaço de bolo e uma
uva. Sim – uma única
uva! Um pedaço de maçã,
algumas frutas. Não recebia
dinheiro, porém o mais precioso
para mim, livros e revistas.
- Depois dos afazeres ia até
o fundo do quintal, ao galpão,
e então me sentia feliz em
meio aos livros e revistas –
estava recompensada pelo meu trabalho
do dia. - Eu tinha fome de ler e
continuo assim até hoje.
- Durante vários anos, fui
guardando meus segredos, só
meus.
- Com o passar de um longo tempo,
já com vinte e cinco anos
de casamento, e meus neurônios
sendo devorados pelo meu pensamento
repleto por tantos obstáculos,
comecei a escrever às escondidas.
- A vontade de ler e escrever veio
desde criança, na mais tenra
idade, ninguém me ensinou
nada, não tive incentivo
de ninguém – Foi somente
quando li o livro de dona Lózinha,
esta mulher que sem saber plantou
uma semente fértil e forte
no meu coração tão
angustiado por querer saber mais,
encorajou-me.
– Quando estava para fazer
vinte e cinco anos de casada –
meu marido me perguntou: o que você
quer de presente pela nossa união?
- Quero algum dinheiro.
- Ele respondeu: - Para que se eu
lhe dou tudo o que você precisa?
Mais?
- Eu não quero festa nem
jóias, não quero nada,
só quero uma quantia para
ter algum dinheiro pois nunca peguei
nada teu.
- Ele disse, quanto? – Não
sei, quanto você puder me
dar.
- Pensou muito e como não
fizemos festa nem me deu uma jóia,
só casamos na igreja –
agora mais feliz, pois fui levada
pelos braços de meu filho
Raulzinho e Nanci acompanhou o pai
- Servi um almoço para os
parentes e amigos mais chegados.
Foi lindo! - Ele me deu uma quantia,
era pouco, mas com o jeitinho que
só a mulher tem pedi mais
um pouquinho. – Ele deu mas
sempre perguntava;- Eu não
entendo, você tem tudo. –
Eu pensava: O que é tudo
para ele? Meu Deus!
- Bem, o livro já estava
quase pronto, mas eu precisava de
alguém que o datilografasse
– conheci uma mocinha, ela
vinha até minha casa quando
meu marido não estava, e
lá ele escreveu o meu primeiro
livro.
- Agora, precisava encontrar alguém
para publicá-lo, a mocinha
disse: - Eu conheço uma gráfica
no centro da cidade, eu levo a senhora.
– O livro era simplezinho,
porém esclarecedor, não
pude comentar com ninguém
pois era meu segredo, sendo assim,
não sabia o que fazer nem
como começar.
- O livro chegou com o nome “A
Janela” – Eu digo a
janela porque eu vi o mundo através
da janela de minha alma e, por intermédio
das leituras que a professora da
Nanci me emprestou, e também
dos livros e revistas que li na
minha infância.
- Pois é, o Raul viajava
muito, nem bem chegava em casa e
lá ia de volta ficava em
torno de dois dias somente. Só
o Natal e Ano Novo ele ficava com
a família.
- Foi desta maneira que me acostumei
a ficar só, muito só,
eu e meus filhos.
- PS.: agora eles são adultos
e continuo só, eu e Deus.
-Foi assim que o amor à escrita
e por meio de vários livros
com os mais diferentes tipos de
informações, que eu
entrei de cabeça na escrita,
escrevo muito, agora sem medo graças
a Deus.
- Bem, voltando – quando levei
o meu pequeno livro “A Janela”
para a gráfica – lá
encontrei o dono – Eu disse:
Quero que o senhor edite este livro
para que eu possa publicá-lo.
- Ele leu o livro e disse: - A senhora
tem coragem de publicar este livro?
Admirada respondi : Claro! Acho
que a quantia que estou lhe pagando
é suficiente para publicar
o livro. Ele disse: - Tudo bem,
mas nunca vou mostrar este livro
à minha esposa é muito
revelador e poderei ficar em apuros
no meu casamento. -Vou dar-lhe um
conselho – não publique
– seu marido não irá
apóia-la de maneira alguma.
- Argumentei – É melhor
o senhor pegar o seu dinheiro e
publicar o meu livro, o resto eu
resolvo. Isto é assunto meu,
Deus está comigo.
- Ele imprimiu, colocou a capa que
eu mesma fiz com uma foto tirada
por minha filha Nanci. Eu na janela
de minha mãe, ficou linda.
- O livro já estava pronto,
não podia voltar atrás.
Aquele homem por maldade escreveu
várias palavras erradas –
não tinha problema. Deus
estava vendo.
- O livro chegou às minhas
mãos – pensei... –
como dizer ao meu marido? Como?-
Porém, peguei coragem , e
um domingo fui junto com a mocinha
que me ajudou à uma feira
debaixo de um viaduto em São
Paulo. Lá, coloquei algumas
tábuas e sobre elas os meus
livros. – Sabem, ficou muito
estranho.
- Todas as pessoas que passavam,
olhavam, paravam e compravam o livro.
– Vendi todos os que levei,
mas... como meu marido é
artista logo os jornais publicaram
– “ A mulher de Raul
Gil é uma escritora”,
e a partir daí começou
o tormento. Meu marido ficou enfurecido
e a casa caiu com tudo.
- Fui convidada para ir à
televisão, dar entrevistas
para os jornais e então para
o Brasil inteiro. – É
claro , com muito medo do que pudesse
vir.
- E veio – a separação
sem eu esperar, pois jamais conseguiria
viver separada pelo fato de ter
casado inexperiente, jovem e sem
conhecer a vida, eu tinha medo do
mundo e das pessoas.
- Meu marido me disse: - Carmen
você não sai de casa,
não tem amizades, não
lê , como pôde escrever
este livro? – Eu estou a tantos
anos na televisão e nunca
tive tantas reportagens, o que você
fez para que isto pudesse acontecer?
O que os outros vão falar
de mim? Eu que sou conhecido no
Brasil inteiro?
- Pensei...: Que audácia
do ser, parece que só ele
existe no universo. – Porém
como relutei ele disse; - O livro
ou o casamento?
- Respondi: - O livro. – Ai
desmoronaram os vinte e cinco anos
de casamento – foram oito
meses de angústia e sofrimentos,
perdemos tudo que conseguimos através
de muita luta, tanta pobreza, tristeza
a grande solidão e ele no
trabalho estafante – tudo
foi por terra.
- No entanto, havia coisas mais
secretas que meu pobre livrinho
– ele já tinha uma
outra pessoa mais jovem. –
Ele estava só esperando uma
oportunidade, e eu lhe dei sem saber.
– Ele estava livre com a garota
e, já pensava seriamente
em casamento. Ela e a mãe
me infernizaram durante os oito
meses para eu assinar o desquite.
-Porém, eu não assinei
– pois vi que ele poderia
cair no mais profundo abismo. Sofri,
mas lutei com dignidade e sabedoria.
Foi aí que tive o prazer
de me conhecer como uma mulher forte
de princípios louváveis
e honrada. A verdade estava comigo
e Deus.
- Houveram muitas intrigas, a família
dele entrou no meio, eles faziam
questão de não ter
nenhum contato comigo e nem com
meus filhos, eu não existia
para eles.
- A partir deste momento todos estavam
em prontidão em frente a
minha pessoa; estava sozinha, sem
apoio de ninguém. Meus pais
não gostaram do ocorrido,
pois tinham vergonha de ter uma
filha separada. Meu cunhado, marido
da minha irmã, fechou a porta
na minha cara, mandou-me embora
de sua casa. Minha irmã não
me defendeu.
- A família de meu marido
achava que eu era uma oportunista,
que queria usar o nome dele para
crescer na vida – pois eu,
inocentemente coloquei Carmen Gil,
pelo fato de ser um nome pequeno
e comercial e já estava acostumada
com este nome. Pelo fato de ter
casado extremamente jovem, eu pensava
que me pertencia pela lei dos homens
e de Deus. – Até hoje
me arrependo deste meu deslize,
pois o nome sagrado é o nome
de meu pai que é Sanchez
com muito orgulho – mas eu
era tola.
- Bem, o restante dos meus livros,
foram queimados, rasgados e jogados
na lata do lixo, etc...
- Depois voltamos, pois ele soube
que a garota com quem tencionava
casar era amante de vários
homens, inclusive amigos dele.
-Agora, estou casada há quarenta
e cinco anos – voltei a escrever,
porém sem medo. O outro livro
chama-se ( A Janela da Alma). Este
ele apoiou literalmente, porque
fui mais inteligente, escolhi o
maior apresentador do Brasil de
todos os tempos, para indicar este
livro – O Dr. José
Blota Júnior. Ele me conheceu
desde minha adolescência por
isso me conhecia profundamente,
ele e Dna Sonia Ribeiro, um casal
que é o maior orgulho da
nossa televisão de todos
os tempos.
- No momento estou terminando uma
trilogia de romances que começa
em 1600 na Espanha. Pelo fato de
ser descendente de espanhóis
queria homenagear minha “abuelita”
(avó) Izabel uma mulher pequenina
que chegou ao Brasil com cinco filhos
homens, fugindo da guerra. Meu “abuelito”
(avô), estava na Argentina
a procura de um lugar para criar
seus filhos. Porém, minha
avó soube do Brasil, arrumou
o que podia, deixou casa e tudo
o mais na Espanha e veio com seus
maiores tesouros que eram seus filhos
em um navio precário.
- Mas, eles chegaram e venceram,
hoje já falecidos, deixaram
um legado de honra porque eles vieram
acrescentar ao nosso amado Brasil.
Com trabalho honesto, abriram várias
indústrias de tornos, e em
todo o mundo existem fábricas
com os tornos “Sanchez Blanes”
que é o sobrenome de minha
avó – Izabel Sanchez
Blanes – do qual nos orgulhamos
muito.
- Daqui por diante, pretendo escrever
até o último dia de
minha vida – que Deus me dê
inspiração para que
eu possa ajudar através de
meus livros mulheres como eu e dona
Lózinha.
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